Padre Joacir d’Abadia traz uma bela reflexão sobre o amor misericordioso de Deus

A misericórdia de Deus deve ser lida na história do seu povo. Deus age de misericórdia com seu povo todas as vezes que é clamado em súplicas confiantes. No Antigo Testamento Deus teve misericórdia do povo depois que Moisés Lhe suplicou: “Moisés, porém, suplicava ao Senhor seu Deus” (Ex 32,11) “E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer a seu povo” (Ex 32,13). No Novo Testamento a misericórdia é manifestada a partir de Cristo.

São Paulo experimenta-a em sua vida errante. Ele “que antes blasfemava, perseguia e insultava” (1Tm 1,13) pode dizer: “encontrei misericórdia” (1Tm 1,13.16). Encontrou a misericórdia em quem? Em Jesus Cristo quando veio ao mundo. E qual, verdadeiramente, foi a finalidade da vinda de Cristo ao mundo? São Paulo diz que “Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores. E eu sou o primeiro deles!” (1Tm 1,15). Aqui o Apóstolo reconhece que é necessitado da misericórdia de Deus. Desta misericórdia que passa, antes de tudo, pelo amor. O amor misericordioso de Deus. Este amor sobre o qual fala o Evangelho de São Lucas 15,1-32.

O Evangelho em questão abre-se com as personagens que, de um lado, escutavam e, do outro, criticavam: “os publicanos e pecadores aproximavam-se de Jesus para o escutar. Os fariseus, porém, e os mestres da Lei criticavam Jesus” (Lc 15,1). Quem são estes personagens?

Os publicanos. Eles prestavam serviços ao Império cobrando os impostos. Eram considerados, então, como exploradores do povo.

Os pecadores. Aqueles que já tinham seus pecados revelados. Eram os pecadores públicos.

Fariseus. Os mestres da lei. Eles achavam que a santidade estava vinculada à lei de tal forma que transgredir a lei era cair em pecado.

Os escribas. Eram os homens da classe privilegiada, pois dela fazia parte somente os intelectuais.

Na Parábola do amor misericordioso de Deus vários fatos nos fazem refletir. Inicialmente a Parábola é apresentada como única: “Então, Jesus contou-lhes esta parábola” (Lc 15,3). O texto “esta parábola” mostra o conjunto da misericórdia que se divide em três partes:

a) A ovelha perdida;
b) A dracma perdida e
c) O filho perdido e o filho fiel: o “filho pródigo”.

Em poucas palavras. Na primeira parte da parábola o que está perdido é um animal irracional: uma ovelha. Na segunda, tem-se um objeto perdido: uma dracma.

Aqui podemos procurar saber:

a) quem é a mulher que perdeu seu objeto tão valioso. Esta mulher é representada pelo próprio Deus;

b) e a lâmpada? É Jesus Cristo que ilumina todos os homens perdidos. São João vai dizer que “a luz brilha nas trevas” (Jo 1,5). Ou seja, Cristo é a luz que brilha nas trevas dos homens, seus pecados. Se a luz brilha nas trevas, elas deixam de serem trevas. As trevas é a falta de luz, a falta do próprio Cristo, é o pecado;

c) qual é o motivo da alegria? É porque a Lâmpada está acesa. Jesus Cristo está vivo. Ele vive para que os pecadores se convertam porque “haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão” (Lc 15,7).

A última parte da parábola refere-se ao “filho Prodigo”. Agora precisamos saber quem é Jesus.

Primeiramente vamos olhar para a figura dos filhos. O filho mais velho aqui é identificando com os fariseus, os mestres da lei, pois ele mesmo vai dizer: “jamais desobedeci a qualquer ordem tua” (Lc 15,29). O filho mais novo representa os publicanos, cobradores de impostos, ele cobra do seu pai a parte da herança: “O filho mais novo disse ao pai: ‘Pai, dá-me a parte da herança que me cabe’” (Lc 15,12).

Quem, então, é Jesus Cristo nesta terceira parte da parábola da misericórdia? Ele é representado pelo Criado que respondeu “‘É teu irmão que voltou. Teu pai matou o novilho gordo, porque o recuperou com saúde’” (Lc 15,27). Porque é o mediador que fala com os dois grupos: os fariseus e os publicamos. Quer dizer, com o filho mais novo e o filho mais velho.

O mediador por excelência é Jesus Cristo. Depois seus Apóstolos e seus sucessores: o bispo de Roma, o Papa e todos os bispos, por fim, os sacerdotes que informam a misericórdia de Deus Pai pelo Sacramento da Reconciliação, a Confissão.

O Papa João Paulo II na Carta Encíclica “Dives in misericordia” disse que “Na parábola do filho pródigo não é usado, nem uma vez sequer, o termo «justiça», assim como também não é usado no texto original, o termo «misericórdia». Contudo, a relação da justiça com o amor que se manifesta como misericórdia aparece profundamente vincada no conteúdo desta parábola evangélica. Torna-se claro que o amor se transforma em misericórdia quando é preciso ir além da norma exata da justiça: norma precisa mas, por vezes, demasiado rigorosa” (DM n. 5).

Em síntese, é o amor misericordioso de Deus que tocam os homens, de todas as épocas, feridos pelo pecado, através do Sacramento da Penitência, dando-lhes a possibilidade de cair em si (cf. Lc 15,17) tomando posse de sua dignidade de filhos de Deus. Assim, Jesus Cristo, a Lâmpada e o “Criado” (como na comparação feita acima), é a misericórdia que perdoa, pois “veio ao mundo para salvar os pecadores” (1Tm 1,15).

Padre Joacir d’Abadia, Pároco da Paróquia São José Operário-Diocese de Formosa-GO, Filósofo, autor de 15 livros e Especialista em Ensino Universitário.