Entre a Cruz e a Estrela por Antonio Victor

Se eu contasse ou não essa história, de qualquer forma sei que carregaria para sempre um pouquinho de dor de consciência. Resolvi contar, portanto, o que não sei, de fato, se deveria. Esta história remonta aos anos 50, mas por enquanto vou apenas aos 70, quando o Brasil homenageava a Garrincha na aveludada voz de Moacyr Franco, que cantava o épico Balada nº 7:

Garrincha

Sua ilusão entra em campo num estádio vazio. Uma torcida de sonhos aplaude, talvez… O velho atleta recorda as jogadas felizes. Mata a saudade no peito, driblando a emoção…

Moacyr Franco

Pois é. Mané Garrincha, que como poucos — e à sua maneira como absolutamente ninguém — já dera tanta alegria ao Brasil, agora era homenageado numa espécie de hino extremamente lírico, plangente e recheado de redondas metáforas:

Hoje outros craques repetem as suas jogadas. Ainda na rede balança o seu último gol. Mas pela vida impedido parou; e para sempre o jogo acabou…

Era muito justa. Justíssima aquela grande homenagem ao “anjo de pernas tortas” que dera maciças doses de felicidade a tantos brasileiros:

Suas pernas cansadas correram pro nada, e o time do tempo ganhou…

Final de carreira:

Cadê você, cadê você, você passou… O que era doce, e o que não era, se acabou. Cadê você, cadê você, você passou… No videoteipe dos sonhos a história gravou.
Garrincha, esse mesmo atleta de nome exótico, supostamente originado pelo modo brasileiramente mal-assimilado do nome de um cavalo campeão das hípicas chamado Gualicho, esse Mané espertíssimo, nos gramados, o deus impoluto que bailava com a bola, esse Fred Astaire de chuteiras, esse malabarista do círculo mágico da bola, com sua arte encantatória do drible e com todas as suas estripulias, merecia, lógico, aquela canção que mais ainda o celebrizava:

Ergue os seus braços e corre outra vez no gramado; vai tabelando o seu sonho e lembrando o passado…
Era a música que coroava com honrarias dignas o final triste da carreira gloriosa de um ídolo:
No campeonato da recordação, faz distintivo do seu coração; que as jornadas da vida são bolas de sonhos que o craque do tempo chutou…

Garrincha que já inspirou crônicas irretocáveis

Mané Garrincha. Esse Garrincha que já inspirou crônicas irretocáveis assinadas por nomes como Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais, Nélson Rodrigues, Paulo Mendes Campos; além de Armando Nogueira, João Saldanha, Sandro Moreira e tantos outros; esse mesmo Garrincha que hoje tem livro com detalhes da sua vida escrito por Ruy Castro, essa estrela solitária, essa alegria do povo.
Consagrado. Amado. Querido. Mas frágil. Debilitado. Um ícone com pés de ouro a mover no coração dos brasileiros um misto de encanto e piedade, e o refrão insistente:

Cadê você? Cadê você? Você passou…

O craque. O fenômeno daquele tempo multiplicado por sete. Garrincha, o maior astro do Botafogo do Rio, o homem que jogou em três Copas do Mundo, que foi bicampeão brasileiro, que com a camisa 7 do Alvinegro seduziu as massas, proporcionando momentos fantásticos com Manga, Joel, Nílton Santos, Rildo, Didi, Quarentinha, Amarildo, Zagalo… Mas ninguém brilhou como ele, que na alegria ou na dor o seu destino era ser uma estrela solitária. A mesma estrela que lá pelos idos de 1965 experimentava também a solidão do ocaso nos estádios da vida.

E daí? Daí a solidão desta história que só agora vou contar. No final da década de 40, início dos anos 50, o Vasco da Gama era o time que mandava. Por exemplo: Barbosa, Augusto, Haroldo, Eli, Danilo, Jorge, Sabará, Ademir Menezes (o Queixada), Ipojucã, Maneca e Chico. Para se ter noção da grandeza do time nessa época, a seleção brasileira de 50 tinha nove jogadores do Vasco da Gama. Ipojucã também era uma estrela e brilhou ao seu devido tempo. Não foi à Copa do Mundo, mas participaria da seleção brasileira no Campeonato Sul-Americano de 53, quando assinou o único gol que deu a vitória ao Brasil contra o Uruguai.

Alagoano, quase 1,90m de altura, habilidoso, e emocionalmente instável, certa vez em jogo histórico contra o América, Ipojucã driblou toda a defesa em campo, ficou cara a cara com o gol e entregou a bola ao goleiro Osni. Nesse dia, voltou a campo no segundo tempo da decisão do Campeonato Carioca de 50 à custa de safanões do técnico Flávio Costa. Mas mesmo assim, deu um passe decisivo para o gol da vitória pelos pés de Ademir.

Pois é. Quem é Ipojucã? Poucos sabem. Mas ele é o inspirador da canção gravada por Moacyr Franco! Foi como que, talvez, uma jogada de marketing. O autor da canção, um senhor-compositor e poeta chamado Alberto Luiz, apresentou-a a Moacyr e lhe contou a história. Moacyr ouviu e se lembrou imediatamente do Camisa 7 do Botafogo. Afinal, a música é maravilhosa, mas não precisava, necessariamente, ter sido feita para Ipojucã… Essa música é do Garrincha!, sugeriu a Alberto Luiz. Era a hora decisiva de optar entre a cruz-de-malta e a estrela solitária. Brilhou a estrela. Mais uma vez. Decisão válida, comercialmente correta, acatada por todos que foram consultados, mesmo sob relutância do compositor Alberto Luiz, que foi voto vencido.

Gostaria de nunca ter sabido dessa história

Também eu gostaria de nunca ter sabido dessa história, mas tomei conhecimento dela pela boca do próprio Moacyr. E Ipojucã, como fica? Não fica. Ou fica com a gratidão de quem sabe da história, de quem conhece a música, dos milhões de vascaínos.

Cadê você, cadê você, você passou…

Mas Garrincha não passa, porque está definitivamente entronizado acima desta e de outras tantas histórias que se contam Brasil afora sobre o grande mito das mais redondas metáforas do verdadeiro futebol do Brasil!

Antonio Victor

Artista de Formosa Antonio Victor

Moacyr Franco – Balada Nº 7 (Mané Garrincha)

Balada n.º 7 Mané Garrincha